segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Zezolla, la Gatta Cenerentola


Mais uma versão de Cinderela:
Zezolla, la Gatta Cenerentola. Gianbattista Basile, Nápoles, século XVII 
 
Era uma vez um príncipe viúvo que tinha uma filha que ele amava muito. A garota tinha uma professora que cuidava dela e lhe ensinava muitas coisas e sempre lhe demonstrava muita afeição.
O pai havia se casado novamente com uma mulher má e perversa, que começou a demonstrar desprezo pela enteada e sempre fazia cara feia e olhares tortos para ela, tanto que a pobre garota sempre se lamentava com a professora sobre o maltrato que sofria da madrasta, e sempre dizia: – Oh Deus, porque não podia ser você a ser a minha mamãezinha, você que gosta tanto de mim? – De tanto repetir isso, uma vez a professora, cegada pela inveja, lhe respondeu: – Se você fizer o que lhe disser esta minha cabeça louca, eu serei sua mãe e você me será sempre cara – Ela ia continuar a falar, quando Zezolla (esse era o nome da garota) disse: – Desculpe-me se a interrompo. Eu sei que você me quer bem, portanto ensine-me o que eu tenho que fazer; você escreve, eu assino.
– Então me escute com atenção – disse a professora. – Assim que seu pai sair, diga a sua madrasta que você quer aquele vestido velho que está dentro do grande baú no porão, para economizar este que você usa agora. Ela, por querer vê-la toda maltrapilha, abrirá o baú e mandará você segurar a tampa enquanto ela procura o vestido. Você irá segurá-lo aberto e, quando ela estiver curvada para dentro revirando as roupas, você deixará a tampa cair com tudo, assim seus ossos irão se quebrar. Após isso, você sabe que seu pai faria de tudo para vê-la feliz, então, quando estiver com ele, peça-lhe para me tomar como sua mulher. Eu serei muito grata a você!
Assim, Zezolla pôs em prática passo a passo o conselho da governanta. Passado o tempo do luto pela desgraça da madrasta, ela começou a dizer ao pai que ele deveria se casar com a professora. No começo, o príncipe achou que fosse brincadeira da filha, mas como ela tanto insistiu, ele acabou ouvindo-a e se casou com Carmosina, a professora, e fez uma grande festa.
Enquanto os noivos estavam na festa, Zezolla foi até um terraço e viu uma pombinha sobre o muro, e esta lhe disse: – Se você precisar de qualquer coisa, peça-a à pomba das fadas da ilha de Sardenha e a terá logo.
A nova madrasta, por cinco ou seis dias, encheu Zezolla de carinho, deixando-a sentar no melhor lugar da mesa e dando-lhe os melhores vestidos. Mas, passado algum tempo, totalmente esquecida do favor que havia recebido da garota, começou a falar das suas seis próprias filhas, que até então havia mantido em segredo. Tanto insistiu com o marido que este recebeu as enteadas com muito amor, esquecendo-se de sua própria filha.
A garota passou a ir apenas do quarto para a cozinha e da pia ao fogão. Suas roupas de seda e ouro se transformaram em trapos. Até seu nome mudou, de Zezolla passou a ser chamada de Gata Borralheira.
Um dia, o príncipe teve que ir à Sardenha, então ele perguntou às suas seis enteadas o que elas queriam que ele trouxesse de presente. Umas pediram belos vestidos, outras lindos enfeites de cabelo, outras brinquedos para passar o tempo, entre muitas outras coisas. Por último, quase por obrigação, perguntou à filha: – E você, o que quer? – e ela respondeu: – Nada além de que o senhor mande lembranças minhas à pomba das fadas, dizendo-lhe que me mande alguma coisa. E se você se esquecer, não conseguirá ir adiante, nem retornar.
O príncipe foi, resolveu tudo o que precisava, comprou os presentes das enteadas e Zezolla saiu de sua mente. Ao tornar ao navio, por mais que tentasse e mexesse as velas, o navio não saia do lugar. O dono do navio, quase desesperado com o ocorrido, acabou adormecendo e sonhou com uma fada, que lhe disse: – Sabe por que o navio não sai do porto? Porque o príncipe, que veio com você, esqueceu-se da promessa que fez à filha, lembrando-se de todos, menos do seu próprio sangue. – Ele acordou e contou o seu sonho ao príncipe, que, envergonhado por seu esquecimento, foi até a gruta das fadas e, falando-lhes da filha, pediu que lhe mandassem alguma coisa.
Uma bela jovem saiu da gruta e disse que agradecia a filha pela boa memória e que queria que ela soubesse que tinha o seu amor. Então deu-lhe uma tâmara, uma enxada, um balde de ouro e uma toalha de seda, dizendo que um era para germinar e os outros, para cultivar a planta. O príncipe, maravilhado com esses presentes, voltou à sua casa, deu às enteadas tudo o que elas queriam e depois entregou à filha o presente da fada. Muito feliz, ela plantou a tâmara em um belo vaso, cuidou dela, regou-a e com a toalha de seda enxugava-a de manhã e a noite. Em quatro dias a planta cresceu e ficou do tamanho de uma mulher, e uma fada saiu de dentro dela dizendo: – O que deseja?
Zezolla respondeu que queria sair de casa algumas vezes, mas não queria que as irmãs soubessem. A fada respondeu: – Sempre que precisar, venha até este vaso e diga: “Tamareira minha dourada, com a enxada de ouro te plantei, com o balde de ouro te reguei, com a toalha de seda te enxuguei, despe a ti e veste a mim!” E quando quiser voltar, mude o último verso, dizendo: “Despe a mim e veste a ti!”
Assim, chegando um dia de festa e estando as filhas da governanta todas arrumadas e cheirosas, Zezolla correu até o vaso e, ao dizer as palavras ensinadas pela fada, ficou arrumada como uma rainha e foi colocada em uma carruagem com doze pajens, e seguiu até onde estavam as irmãs, que ficaram com inveja da bela moça que viram. Mas, como era a vontade da sorte, o rei também estava lá e ficou encantado com a extraordinária beleza de Zezolla. Ele pediu ao seu empregado mais leal que descobrisse quem era aquela bela moça e onde vivia. O empregado começou a segui-la quando ela estava indo embora, mas ela, percebendo, jogou algumas moedas de ouro que havia pegado da tamareira para esse propósito. Ao ver o ouro, ele se esqueceu de segui-la para encher o bolso. Ela voltou para casa, despiu-se e esperou as irmãs voltarem. Estas, para deixá-la com inveja, contaram sobre todas as coisas maravilhosas que haviam visto. Enquanto isso, o empregado foi até o rei e contou sobre as moedas. O rei, furioso com ele, lhe disse que, a qualquer custo, na próxima festa ele teria que descobrir quem era aquela jovem e onde vivia.
Chegou a outra festa e as irmãs, muito arrumadas, saíram deixando Zezolla no fogão. Ela correu até a tamareira e, ao dizer as mesmas palavras, saíram várias fadas da planta, uma com um vestido, outra com uma coroa, outra com um pente, outra com um colar, e outras ainda com várias outras coisas. Deixaram-na linda como o sol e colocaram-na em uma carruagem com seis cavalos, um cocheiro e alguns pajens. Chegando à festa, ela incitou maravilhas ao coração das irmãs e fogo ao peito do rei. Mas, ao ir embora, o empregado do rei a seguiu novamente, e para que ele não a alcançasse, ela jogou algumas joias e pérolas, e o homem parou para pegá-las, pois não eram coisas para se jogar fora. Assim, ela teve tempo de voltar a sua casa e de despir-se. O empregado voltou até o rei, que lhe disse: – Pelas almas dos mortos, se você não encontrá-la, você será um homem morto!
Chegou a terceira festa e, assim que as irmãs saíram, ela foi até a tamareira e, novamente dizendo aquelas palavras, foi vestida maravilhosamente e posta em uma carruagem de ouro com muitos servidores. Na festa, causou muita inveja às irmãs e, quando foi embora, o empregado do rei a seguiu e estava quase alcançando-a. Ao vê-lo sempre perto, ela mandou o cocheiro correr, e a carruagem correu com tanta fúria que um sapato escapou de seu pé. Não se podia ver uma coisa mais bela. O empregado, que não conseguiria alcançar a carruagem que voava, pegou o sapatinho do chão e o levou ao rei, contando-lhe tudo. O rei, ao pegar o sapatinho, disse: – Se a base é assim tão bela, imagine como será a casa! Oh bela dama que prendeu a minha alma em sua rede de amor! – Assim, o rei chamou o escrivão, tocou a trombeta e lançou um aviso dizendo que todas as mulheres do reino deveriam ir à festa que ele daria e ao banquete.
Chegou o dia, e que grande banquete foi preparado! Vieram todas as mulheres, jovens e velhas, bonitas e feias, ricas e pobres, e o rei experimentou o sapatinho no pé de todas elas, uma por uma, para tentar descobrir a quem ele pertencia. Mas o sapatinho não servia em nenhum pé. O rei começava a ficar desesperado e disse: – Quero que todas voltem amanhã, e se me querem bem, não deixem nenhuma mulher em casa, seja ela quem for!
Então o príncipe disse: – Eu tenho uma filha, mas ela está sempre no fogão e não merece sentar-se a mesa com vossa majestade.
– Que essa seja a primeira da lista – disse o rei.
No outro dia todas voltaram, e junto com as filhas de Carmosina veio Zezolla. Assim que o rei a viu, desconfiou que aquela fosse a moça que procurava. Após o banquete, veio a prova do sapato que, assim que se aproximou do pé de Zezolla, quase que pulou sozinho ao pé da moça. Ao ver isso, o rei correu para abraçá-la e colocou uma coroa em sua cabeça, dizendo a todos que deveriam reverenciá-la como sua rainha. As irmãs viram essa cena e ficaram com muita raiva, não conseguiram suportar a inveja de seus corações e fugiram de volta para a casa da mãe.
 
Tradução do conto “La Gatta Cenerentola”, de Giambattista Basile, publicado em “Lo cunto de li cunti (Il Pentamerone). Volume I”. Tradução: Ana Lucia Rizzi Fiori.  Extraído do blog:
http://sempreversoes.blogspot.com.br/2013/02/a-gata-borralheira.html
 
 
 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A donzela, o sapo e o filho do chefe


 


 
 
Havia uma vez um chefe africano que tinha duas mulheres e com cada uma delas tinha uma filha. Aconteceu

que, um dia, a primeira mulher morreu, e sua filha teve de ir morar com a segunda mulher, que não gostava nem um pouquinho dela e logo passou a maltratá-la de todas as maneiras. Era ela quem cuidava dos animais, tirava água do poço, cortava lenha, e como se tudo isso não bastasse, ainda tinha de moer o tuwo e o fura, e dar de comer a toda a família. O pior, é que depois de todo o trabalho feito, a madrasta só permitia que ela comesse as raspas queimadas que sobravam no fundo da panela. 
Sem nada poder fazer, a menina sentava- se perto de um poço e comia o que conseguia. O resto, jogava para os sapos que moravam dentro d’água. E assim aconteceu dia após dia, até que ao lugar chegaram  mensageiros de uma aldeia vizinha, anunciando que haveria uma grande festa no dia do Festival da Colheita. Nesta tarde, quando ela foi para o poço comer as raspas que a madrasta lhe dera, ela encontrou um enorme sapo, que foi logo dizendo:  
– Donzela, amanhã é o dia do Festival. Venha até aqui assim que o sol raiar e nós a ajudaremos. 
Na manhã seguinte, porém, quando ela estava indo para o poço, a meia irmã lhe disse: 
– Volte aqui, sua menina inútil! Você não mexeu o tuwo, nem moeu o fura, nem pegou água no poço, nem lenha na floresta. Então ela voltou para fazer esses trabalhos e o sapo passou o dia inteiro esperando por ela. Ao entardecer, assim que acabou todo o serviço, ela correu para o poço e lá estava o velho sapo, que foi logo dizendo: 
– Tsc, tsc. Esperei por você desde de manhã e você não veio. 
– Velho amigo – respondeu a menina - eu sou uma escrava. Minha mãe morreu e eu me mudei para a cabana da outra mulher de meu pai. Ela me faz trabalhar sem parar e só me dá restos de comida para comer. 
O sapo, então, disse: 
– Menina, dê-me sua mão. Ela estendeu-lhe a mão e pularam juntos para dentro d’água. Aí, ele a levantou, engoliu-a e depois a vomitou. 
– Boa gente – disse ele para os outros sapos - Olhem e digam-me. Ela está reta ou torta? 
Os sapos se entreolharam e responderam: “Ela está torta para a esquerda”. Então ele novamente a levantou, engoliu-a, vomitou-a e novamente perguntou aos outros sapos: 
– Boa gente. Olhem e digam-me. Ela está reta ou torta? 
– Ela está bem reta agora – coaxaram os sapos. Então ele vomitou roupas, pulseiras, anéis e um par de sapatos, um de prata e outro de ouro, e disse: 
– Tome. Vista-se e vá ao Festival. Mas preste atenção. Quando a dança estiver quase no fim e os dançarinos já estiverem se dispersando, deixe seu sapato de ouro lá e volte para casa. 
A menina vestiu as lindas roupas, enfeitou-se com as lindas joias que o sapo lhe dera e correu para o Festival. Quando o filho do chefe a viu chegando, disse: 
– Aí está uma donzela para mim. Não me interessa de que casa ela vem. Tragam-na aqui! 
Então os servos levaram a menina até onde ele estava e juntos eles passaram a noite toda conversando. Mas quando os bailarinos começaram a se dispersar, ela se levantou e, antes que o filho do chefe pudesse impedi-la, saiu correndo, deixando o sapato de ouro para trás. Na beira do poço, já esperando por ela, estava o sapo. Mais do que depressa, eles pularam dentro d’água, ele a engoliu e vomitou-a: e lá estava ela, exatamente como era antes, vestida com andrajos. 
Enquanto isto, o filho do chefe dizia ao pai: 
– Pai, hoje conheci uma jovem que usava um par de sapatos, um de ouro e outro de prata. Aqui está o de ouro, ela o esqueceu aqui. Ela é a menina com quem eu quero me casar. Faça com que se reúnam todas as jovens, moças ou velhas dessa aldeia e da aldeia vizinha, para descobrir quem tem o de prata. 
O chefe na mesma hora ordenou que se reunissem todas as donzelas e cada uma experimentou o sapato, mas em nenhuma ele serviu. Foi quando alguém disse: 
– Espere um minuto! Ainda há aquela moça órfã, que mora naquela casa. 
Buscaram então a moça. Assim que o filho do rei a viu, correu em direção a ela, calçou o sapato de ouro em seu pé e levou-a com ele para sua cabana. Assim que ela partiu, o sapo chamou todos os outros sapos, tanto os grandes quanto os pequenos, e lhes disse: 
– Minha filha está se casando. Quero que cada um de vocês dê a ela um presente. 
E cada um deles vomitou coisas para ela: cobertores coloridos, tapetes, esteiras, tecidos, vasilhas, e o sapo velho, depois de muito esforço, vomitou uma cama de prata, uma cama de cobre e uma cama de ferro. Na manhã seguinte, quando a menina acordou, viu na soleira da porta o velho amigo e os presentes. Ela ajoelhou-se respeitosamente e ele lhe disse: 
– Isto tudo é para você. Mas preste atenção. Quando seu coração estiver triste, deite-se na cama de bronze. Quando seu coração estiver tranquilo, deite-se na cama de prata e quando o filho do chefe vier visitá-la, deite-se com ele na cama de ouro. Quando as outras mulheres de seu esposo vierem cumprimentá-la, dê-lhes duas cabaças de nozes e dez mil conchas de molusco para comprarem flores de tabaco. Quando as concubinas vierem pegar milho para fazer o tuwo, deixem que se sirvam à vontade. Mas, se a mulher de seu pai vier com sua filha e lhe perguntar como é viver na cabana do chefe, diga-lhe: “Viver na cabana do chefe é muito difícil, porque eles medem o milho com uma concha de Bambara". Um dia, a madrasta foi com a filha visitar a menina e perguntou-lhe como era a sua vida. Lembrando-se dos conselhos do sapo, ela respondeu: – Oh! É muito difícil. Eles usam uma concha de Bambara para medir o milho. Quando as outras mulheres do chefe vêm me cumprimentar, eu respondo com um ”BAH!” de desprezo. Se as concubinas vêm me cumprimentar, eu cuspo nelas. E quando meu marido chega na cabana, eu grito com ele.
A madrasta, na mesma hora, colocou a própria filha na cabana e obrigou a órfã a voltar para casa com ela.
Na manhã seguinte quando as mulheres vieram cumprimentá-la, a filha da madrasta gritou-lhes: “BAH!”. Quando as concubinas vieram visitá-la, ela cuspiu nelas. E quando caiu a noite e o filho do chefe foi vê-la, ela gritou com ele. O filho do chefe achou aquilo muito estranho. Saiu da cabana e por dois dias pensou no assunto. Depois, reuniu suas mulheres e concubinas e disse para elas: 
– Olhem! Chamei vocês para perguntar-lhes: Como minha nova esposa trata vocês? 
– Como nos trata?! exclamaram elas. - Cada manhã, quando íamos cumprimentá-la, ela nos dava duas cabaças de nozes e dez mil cowries para comprar flores de tabaco. Depois dava a cada uma de nós uma cabaça de nozes, cinco mil cowries para comprar flores de tabaco, e um saco cheio de milho para fazer tuwo. Agora ela grita “Bah!” e nos cospe. 
– Vê - disse ele. Antes, quando ia vê-la, eu sempre a encontrava ajoelhada e ela se deitava comigo na cama de ouro, agora ela grita comigo. – Acho que trocaram a menina. 
O filho do chefe, então, chamou seus guerreiros. Eles entraram na cabana da moça e a cortaram em pedacinhos. Depois, foram à casa da madrasta e lá encontraram a pobre órfã deitada nas cinzas da fogueira. Na mesma hora a levaram de volta para o marido. Na manhã seguinte, ela contou ao marido como o sapo a havia ajudado e pediu que ele mandasse construir um poço próximo à sua cabana para que o velho sapo e todos outros sapos, grandes ou pequenos, passassem a morar ali. E assim foi.
 
 
Notas:
1 Tuwo – uma espécie de mingau. 
2 Fura – uma espécie de mistura de cereais. 
3 Conchas usadas como dinheiro em várias tribos africanas. 
4 Expressão que significa “como as pessoas aqui são ‘pão-duras’, há pouco para comer”.
 
 
 
Tradução e adaptação de Maria Clara Cavalcanti de “The maiden, the frog & the chief’s son”, de William Bascom, e que faz parte do livro CINDERELLA, A Folklore Casebook, de Alan Dundes Garland, da editora Publishing, Inc. New York & London. 1982 p.148. Este conto foi publicado no “Journal of the Folklore Institute”, em 1972.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A leste do sol e a oeste da lua (norueguês)



   Era uma vez um pobre agricultor com uma prole tão numerosa que ele não conseguia prover a comida e as roupas necessárias. Os seus filhos eram muito bonitos, porém a mais bonita de todas era a filha mais nova, era o encanto personificado.

   Numa noite de quinta-feira, no outono, o tempo estava rigoroso, tudo cruelmente escuro, chovia e ventava, abalando as paredes da cabana. Estavam todos sentados em volta do fogo, ocupados com uma coisa ou outra. E então ouviram três batidinhas na vidraça da janela. O pai foi ver o que se passava e, quando saiu de casa, viu nada menos que um grande Urso Branco. "Boa noite para você", o Urso Branco disse. "Igualmente", o homem disse.

   "Você não quer me dar a sua filha mais nova? Se você a der, vou fazê-lo ficar rico na mesma medida em que agora é pobre", o Urso disse.

   Bem, o homem não ia lamentar nem um pouco ficar tão rico. Mas mesmo assim ele achou que deveria primeiro conversar um pouco com a filha. Então entrou em casa e lhe contou que havia um grande Urso Branco, esperando lá fora, que lhe prometera enriquecê-lo se ele lhe desse a filha mais nova.

   A jovem disse um redondo "Não!". Nada a faria dar uma resposta diferente. Então o homem saiu e disse ao Urso Branco que deveria voltar na quinta-feira seguinte para ter uma resposta. Nesse meio-tempo, ele conversou com a filha, dizendo-lhe quantas riquezas poderiam ter, e que ela própria ficaria rica. Finalmente ela mudou de idéia, lavou e remendou seus trapos, fazendo-se o mais elegante possível, e ficou pronta para partir. Não vou dizer que teve muito trabalho para arrumar suas coisas.

   Na noite da quinta-feira seguinte, o Urso Branco foi buscá-la, ela subiu nas costas dele com sua trouxa, e lá se foram eles. Depois de andar um pouco, o Urso Branco disse:

   "Você está com medo?"

   "Não!", ela não estava.

   "Ótimo! Segure firme no meu casaco de pêlos, que assim você não terá nada a temer", o Urso disse.

   Então percorreram um caminho muito longo até chegarem a uma colina bastante íngreme. O Urso Branco deu uma batida na encosta da colina e uma porta se abriu. Eles entraram num castelo onde havia muitas salas, todas iluminadas, que rebrilhavam com prata e ouro. E havia também uma mesa posta, grande a mais não poder. Então o Urso Branco lhe deu uma sineta de prata, que ela deveria tocar quando quisesse alguma coisa, e esta lhe seria dada imediatamente.

   Já noite alta, depois de ter comido e bebido, ela ficou com sono, quis ir para a cama e tocou a sineta. Mal ela tocou, encontrou-se num quarto onde havia uma cama arrumada, tão limpa e branca que dava vontade de nela descansar, com travesseiros e cortinas de seda e franjas douradas. Tudo no quarto era de ouro ou de prata. Quando ela se deitou na cama e apagou a luz, um homem veio se deitar ao seu lado. Era o Urso Branco, que à noite se livrava da sua aparência animal. Mas ela nunca o via, porque ele sempre chegava depois de se apagar a luz e ia embora antes do alvorecer. Por algum tempo ela ficou feliz com essa situação, mas a certa altura começou a ficar calada e tristonha. Isso porque passava o dia inteiro sozinha, e ela queria voltar para casa para ver seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs. Certo dia, quando o Urso Branco perguntou o que lhe faltava, ela disse que aquele lugar era muito maçante e solitário, que queria ir para casa para ver seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs, porque ficar longe deles a fazia triste e infeliz.

   "Bem, bem", o Urso disse. "Talvez haja um remédio para tudo isso. Mas você tem que me prometer uma coisa: não falar a sós com sua mãe, falar somente quando os outros estiverem ouvindo. Ela vai tentar tomar sua mão e levá-la a um quarto para conversar a sós com você. Mas você deve evitar que isso aconteça, pois pode trazer má sorte para nós dois."

   Num domingo, o Urso Branco disse que partiriam para ver o pai e a mãe dela. E lá se foram eles, ela montada às suas costas. Percorreram um longo caminho e finalmente chegaram a uma casa imponente, e lá estavam seus irmãos e irmãs correndo e brincando do lado de fora, e tudo era tão bonito que era uma alegria ver.

   "É aqui que seu pai e sua mãe moram agora", o Urso Branco disse. "Mas não se esqueça do que eu lhe disse, senão vai trazer infelicidade para nós dois."

   "Não!", não iria esquecer. Quando ela chegou à casa, o Urso Branco deu meia-volta e foi embora.

   E, quando ela entrou para ver o pai e a mãe, houve uma alegria que parecia não ter fim. Nenhum deles achava ser possível lhe agradecer o bastante por tudo o que fizera por eles. Agora tinham tudo o que queriam, do bom e do melhor, e todos queriam saber como ela passava no lugar onde agora vivia.

   Bem, disse ela, era muito bom viver onde ela vivia, pois tinha tudo o que queria. Mas acho que nenhum deles estava entendendo direito a situação nem conseguiu tirar grande coisa dela. E então, à tarde, depois da refeição, tudo aconteceu como o Urso Branco previra. A mãe queria falar com ela a sós no seu quarto, mas ela se lembrou do que o Urso Branco dissera e não quis acompanhá-la até o quarto.

   "Oh, essa conversa pode ficar para depois", ela disse para dissuadir a mãe. Mas esta terminou por encontrar um meio de acuá-la, e ela teve que lhe contar toda a história. Contou então que toda noite, tão logo se deitava na cama e apagava a luz, um homem se deitava ao seu lado, mas ela não o via porque ele sempre ia embora antes do alvorecer. Contou também que vivia triste e aflita, porque gostaria de vê-lo, e que estava sempre sozinha, sentindo-se isolada, solitária e entediada.

   "Meu Deus!", a mãe exclamou. "Pode ser que você esteja dormindo com um Troll! Mas agora vou lhe ensinar um jeito de conseguir vê-lo. Vou lhe dar um pedacinho de vela, que você pode levar junto ao peito. Acenda a vela quando ele estiver dormindo, mas tenha cuidado para não deixar a cera cair nele."

   Sim! Ela pegou a vela, escondeu-a no peito, e quando anoiteceu o Urso Branco foi buscá-la.

   Mas, logo no começo do percurso, o Urso Branco perguntou se as coisas tinham acontecido como ele previra.

   Bem, ela não podia dizer que não.

   "Agora preste atenção", ele disse. "Se ouviu o conselho da sua mãe, você trouxe má sorte para nós dois, e tudo que se passou entre nós não terá valido de nada."

   "Não", ela disse. Ela não dera ouvidos ao conselho da mãe.

   Quando ela chegou em casa e foi para a cama, aconteceu a mesma coisa de sempre. O homem se deitou ao seu lado. Mas na calada da noite, quando o ouviu ressonar, ela se levantou, acendeu a vela, iluminou-o, viu que ele era o Príncipe mais encantador que jamais se vira e se apaixonou profundamente por ele no mesmo instante, pensando que não poderia viver se não lhe desse um beijo naquela mesma hora. E assim ela fez, mas ao beijá-lo deixou cair três gotas quentes de cera na camisa dele, e ele acordou.

   "O que você fez?", ele exclamou. "Agora você trouxe infelicidade para nós dois, pois, se você tivesse guardado segredo apenas durante este ano, eu estaria livre. Porque tenho uma madrasta que me enfeitiçou, por isso sou um Urso Branco durante o dia, e um Homem durante a noite. Agora todos os laços que nos prendiam se romperam, e preciso me afastar de você para ficar junto dela. Ela vive num castelo situado a leste do sol e a oeste da lua, onde mora também uma Princesa com quinze palmos de nariz, com quem agora devo me casar."

   Ela chorou e se ofendeu, mas não adiantou nada. Ele precisava ir embora.

   Então ela perguntou se poderia acompanhá-lo.

   Não, não poderia.

   "Então me diga o caminho", ela disse, "que vou procurar você. Pelo menos isso devo ter permissão para fazer."

   "Sim, você poderia fazer isso", ele disse. "Mas não existe caminho para esse lugar. Ele fica a leste do sol e a oeste da lua. Sendo assim, você nunca vai encontrar o caminho."

   Na manhã seguinte, quando ela acordou, o Príncipe e o palácio tinham desaparecido, e ela estava deitada numa nesga de gramado verde, no meio de uma mata fechada e sombria, tendo ao seu lado a mesma trouxa de trapos que levara da sua antiga casa.

   Depois de esfregar os olhos para acabar de despertar e depois de chorar até a exaustão, ela se pôs a caminho e andou durante muitos e muitos dias, até chegar a um penhasco elevado. Ao pé dele havia uma velha brincando com uma maçã de ouro, que ela jogava para cima. A jovem lhe perguntou se conhecia o caminho que levava a um Príncipe que vivia com a sua madrasta num castelo a leste do sol e a oeste da lua e que deveria se casar com a Princesa que tinha quinze palmos de nariz.

   "E como você ficou sabendo da existência dele?", a velha perguntou. "Por acaso você não é a jovem que deveria ficar com ele?"

   Sim, ela era.

   "Ah, então é você, é?", a velha disse. "Bem, a única coisa que sei sobre ele é que mora num castelo que fica a leste do sol e a oeste da lua, e que lá você vai chegar, tarde ou nunca. Mas você pode pegar meu cavalo emprestado e ir nele até minha vizinha mais próxima. Talvez ela saiba lhe dizer. Quando você chegar lá, basta dar uma chicotada sob a orelha esquerda do cavalo e dizer a ele para voltar para casa. Mas espere um pouco... pode levar esta maçã de ouro com você."

   Ela montou no cavalo e cavalgou por muito, muito tempo e por fim chegou a outro penhasco, ao pé do qual havia outra velha, que estava com um pente de ouro para cardar. A jovem lhe perguntou se sabia o caminho para o castelo que ficava a leste do sol e a oeste da lua, e ela respondeu, como a primeira velha, que não sabia de nada, exceto que o castelo ficava a leste do sol e a oeste da lua.

   "E lá você vai chegar, tarde ou nunca. Mas você pode pegar o meu cavalo emprestado e ir nele até minha vizinha mais próxima. Talvez ela saiba lhe dizer. E, quando você chegar lá, basta dar uma chicotada sob a sua orelha esquerda e dizer a ele para voltar para casa."

   E a velha lhe deu o pente de cardar feito de ouro. Pode ser que ele lhe sirva para alguma coisa, ela disse. Então a jovem montou no cavalo, cavalgou durante muito, muito tempo, cansando muito. E finalmente chegou a outro grande penhasco, ao pé do qual estava outra velha fiando com uma roda de fiar de ouro. A jovem também lhe perguntou como chegar até o Príncipe e onde ficava o castelo situado a leste do sol e a oeste da lua. E a coisa se repetiu mais uma vez.

   "Por acaso você não é a jovem que deveria ficar com ele?", a velha disse.

   Sim, era.

   Mas ela não estava nem um pouco mais informada que as outras sobre o tal caminho. Ela sabia que ficava "a leste do sol e a oeste da lua" — e nada mais.

   "E lá você vai chegar, tarde ou nunca. Mas vou lhe emprestar meu cavalo, e acho que é melhor você cavalgar em direção ao Vento Leste e perguntar a ele. Talvez ele conheça aquelas paragens e possa levar você para lá. E, quando você chegar onde ele está, basta dar uma chicotada sob a orelha esquerda do cavalo, que ele vai voltar para casa sozinho."

   E ela lhe deu a roda de fiar feita de ouro.

   "Talvez ela lhe sirva para alguma coisa", a velha disse.

   Então ela cavalgou durante muitos e muitos dias fatigantes, até chegar à casa do Vento Leste, e então ela perguntou se ele poderia lhe ensinar o caminho para chegar ao Príncipe que morava a leste do sol e a oeste da lua. Sim, o Vento Leste ouvira falar muito do Príncipe e do castelo, mas não podia lhe ensinar o caminho, pois nunca fora tão longe.

   "Mas, se você quiser, vou com você até o meu irmão Vento Oeste, que talvez saiba, porque ele é muito mais forte. Se quiser montar nas minhas costas, posso levar você até lá."

   Sim, ela montou nas suas costas, e imagino que fizeram o percurso bem rápido.

   Quando chegaram, entraram na casa do Vento Oeste, e o Vento Leste disse que aquela jovem estava destinada ao Príncipe que vivia no castelo a leste do sol e a oeste da lua, e que ela o tinha procurado e que ele a acompanhara, e ficaria satisfeito se o Vento Oeste soubesse como chegar ao castelo.

   "Não", o Vento Oeste disse, nunca fui tão longe. "Mas, se você quiser, levo você ao meu irmão, o Vento Sul, porque ele é muito mais forte do que nós dois, e já andou por esse mundo todo. Talvez ele possa lhe dizer. Pode subir nas minhas costas que a levo até ele."

   Sim! Ela montou nas suas costas e foram até o Vento Sul, e imagino que a viagem tenha sido bem rápida.

   Quando chegaram lá, o Vento Oeste perguntou ao irmão se poderia dizer à jovem o caminho do castelo que ficava a leste do sol e a oeste da lua, pois ela estava destinada ao Príncipe que lá vivia.

   "Não me diga! Então é ela?", o Vento Sul disse.

   "Bem", ele acrescentou. "No meu tempo andei por muitos lugares, mas nunca fui tão longe. Mas se quiser a levo ao meu irmão Vento Norte, que é o mais velho e mais forte de todos nós e, se ele não souber onde é, você não vai encontrar ninguém no mundo que possa lhe dizer. Pode montar nas minhas costas, que levo você até lá."

   Sim! Ela montou nas suas costas, e lá se foram a grande velocidade. Também dessa vez a viagem foi rápida.

   Quando chegaram à casa do Vento Norte, este estava tão desvairado e irritado que de longe já se sentiam as suas lufadas frias.

   "AO DIABO COM VOCÊS DOIS, O QUE QUEREM?", o vento rugiu de longe, fazendo-os tremer de frio.

   "Bem", o Vento Sul disse. "Não precisa falar desse jeito, porque quem está aqui sou eu, seu irmão, o Vento Sul, e aqui está a jovem destinada ao Príncipe que mora no castelo a leste do sol e a oeste da lua, e agora ela quer saber se você já esteve lá e se pode lhe ensinar o caminho, porque ficaria muito feliz em encontrá-lo novamente."

   "SIM, SEI MUITO BEM ONDE FICA", o Vento Norte disse. "Uma vez soprei uma folha de choupo até lá, mas fiquei tão cansado que muitos dias depois eu não conseguia soprar nem uma lufada. Mas, se você quer mesmo ir até lá, e não tiver medo de me acompanhar, carrego-a nas minhas costas e vejo se consigo levá-la até onde quer ir."

   Sim! Com todo gosto. Ela faria tudo que lhe fosse possível. Quanto a sentir medo, por mais loucamente que ele voasse, ela não haveria de temer.

   "Muito bem, então", o Vento Norte disse. "Mas você tem que dormir aqui esta noite, porque precisaremos viajar um dia inteiro, se quisermos chegar lá."

   No dia seguinte bem cedo o Vento Norte a acordou, inflou-se, ficou tão forte e grande que dava até medo olhar para ele. E lá se foram pelos ares, como se só fossem parar quando chegassem ao fim do mundo.

   Aqui embaixo caiu tal tempestade que derrubou extensas matas e muitas casas, e quando ele passou sobre o mar imenso centenas de navios afundaram.

   E eles continuaram a voar — não dá nem para acreditar quão longe foram — e durante todo o tempo continuaram sobre o mar. O Vento Norte ficava cada vez mais cansado e tão ofegante que mal podia dar um sopro, e as suas asas começaram a cair, cair, até que finalmente ele desceu tanto que as cristas das ondas lhe cobriram os calcanhares.

   "Você está com medo?", o Vento Norte disse.

   "Não!", ela não estava.

   Já estavam perto da terra firme. E o Vento Norte ainda tinha força suficiente para jogá-la na praia, sob as janelas do castelo que ficava a leste do sol e a oeste da lua. Mas então ele estava tão fraco que precisou descansar por muitos dias antes de poder voltar para casa.

   Na manhã seguinte a jovem se sentou sob a janela do castelo e começou a brincar com a maçã de ouro. A primeira pessoa que ela viu foi a Nariguda com quem o Príncipe deveria se casar.

   "O que você quer em troca da sua maçã de ouro, jovem?", a Nariguda disse, abrindo a janela.

   "Não está à venda, não a troco por ouro nem por dinheiro", a jovem disse.

   "Se você não a troca por ouro nem por dinheiro, por que a trocaria? Você pode fazer o seu preço", a Princesa disse.

   "Bem! Se eu puder me encontrar com o Príncipe que mora aqui e puder passar a noite com ele, pode ficar com a maçã", disse a jovem que fora trazida pelo Vento Norte.

   Sim! Ela podia fazer isso. Então a Princesa ficou com a maçã de ouro. Mas, quando à noite a jovem chegou ao quarto do Príncipe, ele estava dormindo profundamente. Ela o chamou, sacudiu, chorando de vez em quando com profunda mágoa. Mas nada do que ela fez conseguiu acordá-lo. Na manhã seguinte, tão logo o dia raiou, a Princesa de nariz grande se aproximou e a levou para fora do castelo.

   Durante o dia ela se sentou sob as janelas do castelo e começou a cardar com o seu pente de ouro, e aconteceu a mesma coisa. A Princesa perguntou o que ela queria em troca do pente. E ela respondeu que não o trocaria por ouro nem por dinheiro, mas, se a outra a deixasse passar a noite com o Príncipe, poderia ficar com ele. Mas, quando chegou ao quarto, ela o encontrou novamente em sono profundo, e por mais que chamasse, por mais que o sacudisse, chorasse e implorasse, não conseguia acordá-lo. E, aos primeiros sinais do raiar do dia, a Princesa de nariz grande se aproximou e a enxotou de lá novamente.

   Durante o dia a jovem se sentou sob a janela do castelo e começou a fiar com a roda de fiar de ouro, e a Princesa de nariz grande também quis ficar com a roda. A jovem disse, como antes, que não a trocava por ouro nem por dinheiro, mas, se ela pudesse ficar sozinha com o Príncipe durante a noite, a Princesa poderia ficar com a roda.

   Sim! Ela poderia muito bem fazer isso. Mas agora é bom que vocês saibam que alguns cristãos que tinham sido levados à força para lá e que estavam no quarto vizinho ao do Príncipe ouviram a mulher que lá estivera chorando, suplicando e chamando por ele duas noites seguidas, e tinham contado ao Príncipe.

   Naquela noite, quando a Princesa chegou com o sonífero para o Príncipe, ele fingiu que bebia mas o jogou para trás, pois desconfiou que se tratava de um sonífero. Então, quando a jovem chegou, encontrou o Príncipe totalmente acordado e lhe contou toda a história de como chegara até ali.

   "Ah", o Príncipe disse. "Você chegou numa boa hora, porque amanhã vai ser o dia do casamento. Mas agora não quero casar com a Nariguda, e você é a única mulher do mundo que pode me libertar. Vou pedir que minha camisa que tem as três gotas de cera seja lavada. Ela vai concordar, porque não sabe que foi você quem as derramou na camisa. Mas esse é um trabalho só para cristãos, e não para esse bando de Trolls, e vou dizer que não quero nenhuma outra mulher para minha esposa, a não ser a que for capaz de lavar a camisa. E vou pedir a você que a lave."

   Então se entregaram à alegria e ao amor durante toda a noite. No dia seguinte, que seria o do casamento, o Príncipe disse:

   "Antes de mais nada, gostaria de saber do que a minha noiva é capaz."

   "Sim!", a madrasta disse, com todo entusiasmo.

   "Bem", o Príncipe disse. "Tenho uma bela camisa que gostaria de usar no meu casamento, mas não sei por que ela está com três manchas de cera que precisam ser eliminadas. Jurei que só casaria com a mulher que fosse capaz de fazer isso. Se ela não conseguir, não merece casar comigo."

   Bem, elas disseram que aquilo não era lá grande coisa, e concordaram. Então a do nariz grande começou a lavar a camisa com todo vigor, mas, por mais que lavasse e esfregasse, as manchas só aumentavam.

   "Ah!", a sua velha mãe exclamou. "Você não consegue. Deixe-me tentar."

   Mal ela pegou a camisa, porém, a coisa ficou ainda pior, e, apesar de ela esfregar, torcer e bater, as manchas ficavam cada vez maiores e mais escuras, e mais feia ficava a camisa.

   Então todas as outras Trolls começaram a lavar, mas quanto mais o faziam, mais a camisa ficava feia, até que finalmente ficou toda preta, como se tivesse ficado em cima da chaminé.

   "Ah!", o Príncipe disse. "Vocês não servem para coisa nenhuma: não conseguem lavar. Aí fora há uma jovem mendiga. Tenho certeza de que ela sabe lavar melhor do que todas vocês. ENTRE, JOVEM!", ele gritou.

   Bem, ela entrou.

   "Jovem, você pode lavar esta camisa e deixá-la bem limpa?", ele disse.

   "Não sei", ela respondeu. "Mas acho que sim."

   E mal pegou a camisa e a mergulhou na água, ela ficou branca como a neve, e até mais branca.

   "Sim, você é a jovem que me serve", o Príncipe disse.

   Ante aquilo a velha ficou tão furiosa que estourou na mesma hora, e logo depois foi a vez da Princesa de nariz grande, e depois desta todo o bando de Trolls — pelo menos nunca mais ouvi falar nada sobre eles.

   Quanto ao Príncipe e à Princesa, libertaram todos os pobres cristãos que tinham sido seqüestrados e presos no castelo, levaram toda prata e todo ouro e se distanciaram o mais que puderam do castelo que ficava a leste do sol e a oeste da lua.


Do livro "103 contos de fadas", de Angela Carter


***

   "A leste do sol e a oeste da lua"

   Mais uma vez Asbjornsen e Moe, ainda na tradução de Darsent (Darsent, p. 22). Este é um dos contos de fadas de maior beleza lírica entre todos os do norte da Europa, e um dos que se revelaram irresistíveis aos escritores "literários" ao longo de dois mil anos, com sua relação com a clássica história de Cupido e Psiquê — tal como recontada em O asno de ouro, de Apuleio — e também com o encantador conto de fadas literário "A bela e a fera", escrito por madame Leprince de Beaumont no século XVIII.

   Mas a Bela de madame Leprince de Beaumont é uma jovem bem educada, criada para se amoldar a uma vida burguesa, virtuosa. Madame Leprince de Beaumont trabalhou como preceptora durante vinte anos; ela escreveu muito sobre o bom comportamento. Mas esta jovem não hesita em ir para a cama com um urso desconhecido e é traída por seu próprio desejo quando vê um jovem sob a pele do urso: "ela pensou que só podia viver se lhe desse um beijo ali mesmo". Então ele desaparece. Mas no final ela fica com ele.

As três tias (norueguês)



   Era uma vez um homem pobre que vivia bem longe, numa cabana na mata, e ganhava a vida caçando. Ele tinha apenas uma filha, que era muito bonita e que, por ter perdido a mãe ainda criança e agora ser quase adulta, disse desejar sair pelo mundo e ganhar seu próprio pão.
   "Bem, mocinha!", o pai exclamou. "Para falar a verdade, aqui você só aprendeu a depenar aves e assá-las, mas de qualquer modo você deve tentar ganhar a própria vida."
   Então a jovem partiu em busca de um emprego, e depois de ter andado um pouco, chegou a um palácio. Lá ela arranjou um emprego, e a rainha gostou tanto dela que todas as outras jovens ficaram com inveja. Resolveram contar à rainha que a jovem dissera ser capaz de fiar meio quilo de linho em vinte e quatro horas — a rainha, é bom que se saiba, era uma grande dona de casa, e prezava muito um trabalho bem-feito.
   "Se você disse isso, tem que provar", a rainha disse. "Mas você pode ter um pouco mais de tempo, se quiser."
   Então, a pobre moça não ousou dizer que nunca tinha fiado em toda a sua vida, e apenas pediu uma sala onde pudesse trabalhar sozinha. Isso lhe foi concedido, e trouxeram-lhe a roda de fiar e linho. Então ela se sentou, triste e chorosa, sem saber o que fazer. Puxou a roda para um lado e para outro, virou-a de um lado para outro, mas sem muito resultado, porque ela nunca tinha visto uma roda de fiar em toda a sua vida.
   Mas de repente uma mulher entrou e se aproximou dela: "Por que está chorando, minha criança?", ela perguntou.
   "Ah!", a jovem suspirou fundo. "Não adianta lhe dizer, porque você não vai conseguir me ajudar."
   "Quem sabe?", a velha senhora disse. "Talvez eu consiga ajudá-la."
   Bem, pensou a jovem consigo mesma, de todo modo vou contar a ela, e então contou que as outras criadas tinham espalhado que ela era capaz de fiar meio quilo de linho em vinte e quatro horas.
   "E cá estou eu, pobre de mim, encerrada aqui para fiar todo esse monte de linho num dia e numa noite, quando na verdade eu nunca tinha visto uma roda de fiar em toda a minha vida."
   "Bem, não se preocupe, minha filha", a velha senhora disse. "Se você me chamar de Tia no dia mais feliz de sua vida, fio o linho, e você pode ir dormir."
   Quando ela acordou na manhã seguinte, lá estava o linho fiado em cima da mesa, tão liso e tão fino como jamais se vira antes. A rainha ficou muito satisfeita de obter um fio tão bonito, e deu à jovem uma quantidade ainda maior de linho. Mas a inveja das outras criadas aumentou ainda mais, e elas resolveram dizer à rainha que a jovem dissera ser capaz de tecer o fio que tinha fiado em vinte e quatro horas. Então a rainha disse novamente que a jovem tinha que fazer o que dissera ser capaz; mas, se não conseguisse terminar o trabalho em vinte e quatro horas, ela não seria intolerante e lhe daria um pouco mais de tempo. Também dessa vez a jovem não teve coragem de dizer "não", mas pediu para ficar numa sala separada para tentar cumprir a tarefa. Novamente se pôs a chorar e a soluçar, sem saber o que fazer, quando então uma outra senhora veio e lhe perguntou: "O que a aflige, menina?".
   A princípio a jovem não quis dizer, mas terminou por contar toda a história da sua aflição.
   "Ora, ora!", a senhora disse. "Não se preocupe. Se você me chamar de Tia no dia mais feliz de sua vida, vou tecer esse fio, e você pode simplesmente ir dormir."
   Sim, a jovem aceitou de bom grado. Então foi dormir. Ao acordar, lá estava uma peça de linho na mesa, tecida e com uma trama tão limpa e tão cerrada que não havia tecido que se lhe comparasse. Então a jovem pegou o tecido e mais do que depressa foi dá-lo à rainha, que ficou satisfeitíssima e providenciou uma quantidade ainda maior de linho para ela. Quanto às demais criadas, ficaram ainda mais irritadas, e deram tratos à bola para inventar alguma coisa sobre ela.
   Finalmente as criadas disseram à rainha que a jovem dissera ser capaz de transformar a peça de linho em blusas em vinte e quatro horas. Bem, tudo se repetiu. A jovem não teve coragem de dizer que não sabia costurar. Então foi encerrada numa sala, e lá ficou às lágrimas, cheia de aflição. Mas então chegou outra senhora e lhe disse que faria as blusas, se a jovem a chamasse de Tia no dia mais feliz de sua vida. A jovem ficou felicíssima com a proposta, e então, seguindo a recomendação da senhora, deitou-se para dormir.
   Ao acordar na manhã seguinte viu sobre a mesa as blusas feitas com a peça de linho — e um trabalho bonito como aquele, nunca jamais se viu. E, mais do que isso, todas as blusas estavam marcadas e prontas para usar. Assim, quando a rainha viu o trabalho, ficou tão contente com a forma como as blusas tinham sido feitas que se pôs a bater palmas e disse: "Nunca tive e nunca vi uma costura como essa em toda minha vida". E depois disso ela passou a gostar da jovem como se fosse sua própria filha. E então lhe disse: "Agora, se você quiser, poderá tomar o príncipe como esposo, porque você nunca vai precisar contratar uma mulher que trabalhe para você. Você sabe fiar, tecer e costurar".
   Assim, uma vez que a jovem era bonita e que o príncipe ficou muito feliz em recebê-la como esposa, o casamento logo se realizou. Mas bem na hora em que o príncipe ia se sentar com a noiva para a festa de casamento, apareceu uma bruxa velha e feia, com um narigão que com certeza tinha uns três metros de comprimento.
   Então a noiva se levantou, fez uma mesura e disse: "Bom dia, Tia".
   "Essa aí é tia da minha noiva?", o príncipe disse.
   "Sim, é!"
   "Bem, então é melhor ela se sentar conosco e participar da festa", o príncipe disse. Para falar a verdade, tanto ele como os demais acharam que ela era uma pessoa repugnante demais para ter perto de si.
   Mas então chegou uma outra bruxa velha. Ela tinha tal corcunda que teve dificuldade em passar pela porta. A noiva se levantou num abrir e fechar de olhos e a saudou: "Bom dia, Tia!".
   E o príncipe perguntou novamente se ela era tia da sua noiva. Ambas disseram que sim. Então o príncipe falou que, já que assim era, ela devia se sentar e participar da festa.
   Mas mal eles tinham se sentado, apareceu outra bruxa velha com olhos grandes feito pires, e tão vermelhos, lacrimejantes e turvos que causavam repulsa. Porém mais uma vez a jovem se levanta de um salto, com seu "Bom dia, Tia", e a esta o príncipe também convidou a se sentar. Não se pode dizer que ele estava muito feliz com aquilo, pois o príncipe pensou consigo mesmo: "Que Deus me proteja dessas tias da minha noiva!".
   Então, pouco depois de ter se sentado, ele não conseguiu guardar os pensamentos para si mesmo e perguntou: "Mas como é possível que minha noiva, uma jovem tão encantadora, tenha tias tão disformes e tão repugnantes?".
   "Logo vou lhe contar como isso é possível", disse a primeira. "Eu era tão bonita quanto ela quando tinha a sua idade. Mas tenho este nariz tão grande por ter passado muito tempo sentada, debruçada sobre meu trabalho de fiar, de forma que meu nariz foi crescendo, crescendo até ficar deste tamanho que você está vendo."
   "E eu", disse a segunda, "desde que eu era jovem, me inclinava para a frente e para trás diante do tear, por isso fui criando essa corcova que vocês estão vendo."
   "E eu", disse a terceira, "desde que era pequena, não fiz outra coisa senão cozer, cozer e cozer de olhos fitos na costura, e é por isso que eles ficaram tão feios e vermelhos, e agora não têm mais jeito."
   "Ora, ora!", o príncipe disse. "Foi uma sorte saber disso. Porque, se as pessoas ficam tão feias e repugnantes com esses trabalhos, então minha noiva não vai nem fiar, nem tecer nem costurar até o fim da sua vida."

Do livro "103 contos de fadas", de Angela Carter

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   "As três tias"
   "O velho Habetrot" é a variante inglesa do conto escandinavo na qual a pessoa que presta ajuda se apresenta ao marido da fiandeira improdutiva como um exemplo do que acontecerá se esta for obrigada a trabalhar como fiandeira e tecelã (cf. "Vassilissa, a Formosa", p. 329, que de fato fia, tece e costura as blusas do rei à perfeição, portanto não está sob pressão para continuar). A fiandeira ociosa, porém, resiste à pressão das circunstâncias adversas para prendê-la ao pé de uma roda de fiar. Como a única maneira de se livrar da penúria é casar com um homem abastado, ela precisará recorrer a truques e subterfúgios. O que é mais divertido é essa conspiração de mulheres, que não apenas escondem os truques da heroína, mas também a salvam de um futuro de trabalho estafante e exprobação. O mesmo não acontece com as edições pós-1819 da história dos irmãos Grimm, que interpelam o leitor: "Você há de convir que ela era uma mulher repulsiva".
   (Darsent, p. 194.)